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28/03/2016

   

Crise, sim, mas fraquejar jamais

Principal período para o setor apresentou diminuição de vendas nas papelarias, que estavam preparadas para encarar o momento

Retração da economia, aumento da inflação, do ICMS, alta do dólar, insegurança por parte do consumidor... Muitos motivos refletiram no desempenho do volta às aulas em 2016. Não foi surpresa para ninguém que haveria diminuição nas vendas. Em virtude disso, os papeleiros pisaram no freio no momento de abastecer o estoque e, dessa forma, conseguiram atingir as expectativas para um período peculiar.


“Tivemos queda de 25% nas vendas, mas era previsto. Por isso, segurei o estoque. Em cima disso, não consegui virar os 100%, mas ficou próximo”, relata Lori dos Santos, proprietário da papelaria Novo Stylo, situada em Torres/RS. Após passar pelo comércio de alimentos e de confecção, está há quase seis anos no ramo papeleiro, onde acredita que permanecerá. Lori afirma que, se o desempenho fosse igual ao de dois anos atrás, o crescimento de vendas no período de volta às aulas atingiria 30%.


A mesma situação foi vivenciada em João Neiva/ES, na Aquarela Bazar. A dona do empreendimento, Lucimeri Araújo, diminuiu as compras para o período em 30% e, assim, conseguiu vender todo o esperado. “Foi devagar, mas vendemos o necessário. Somente os apetrechos que costumavam comprar para completar o material não foi adquirido pela maioria dos clientes”, revela.


Promoções, principalmente em mochilas, um dos itens mais vendidos, foram importantes para atrair o público e converter em giro de venda. “Chegamos a dar 50% de desconto em mochilas do estoque antigo. Se não fosse isso, o volta às aulas teria sido muito pior”, afirma Lucimeri, à frente da Aquarela Bazar há 20 anos. Além dos descontos, a facilidade no pagamento incentiva os clientes a fechar negócio. O dono da Novo Stylo aponta que dividir a compra em até dez vezes sempre é boa estratégia na loja.


No geral, o básico permaneceu como o principal quesito de compra entre os consumidores e o reaproveitamento de materiais foi bem maior do que em anos anteriores. “Os pais tentaram aproveitar o máximo de material possível”, aponta o diretor comercial da Brasil Escolar Rede Nacional de Papelarias, Sidney Fusco.


Estratégia assertiva


Segundo o diretor da associação de papelarias, o trabalho geral foi em cima de perspectiva de queda violenta. “Quem teve sobriedade para ter equilíbrio nas compras, não deixar falta produto e, ao mesmo tempo, não sobrar no estoque, se manteve na estabilidade. Isso era o que deveria ter sido feito para lutar contra o inevitável declínio, e foi esse o comportamento dos papeleiros para o volta às aulas deste ano”, declara Sidney.


Outro ponto em comum destacado pelo diretor comercial da Brasil Escolar é a diminuição nas contratações, prática muito comum – e necessária – nas papelarias para encarar o VAA. “Tivemos que trabalhar com pés no chão e isso culminou em trabalhar com o mínimo de pessoal e até não atender bem o cliente, mas foi a solução. Não houve muitas contratações”, salienta ele, que possui loja no segmento papeleiro há 35 anos.


Mesmo papelarias que têm público garantido, como a Ponto.com, de Rogério Canuto, localizada dentro de um colégio e faculdade no Rio de Janeiro/RJ, houve retração nos pedidos. “Não faço promoções, tendo em vista a facilidade de estar muito próximo de quem precisa. Minha venda é certa, mas enxugou um pouco neste ano. Percebi que muitos pais optaram por repassar os livros”, corrobora o papeleiro. “Também percebi que houve muita venda pela internet para tentar comprar livros mais baratos. O problema é que há muita margem para erro. Clientes vieram até mim depois de comprar produtos de edição desatualizada ou porque, simplesmente, o item veio errado”, alerta Rogério.


Internet como aliada


Apesar de eventuais problemas, os clientes estão, cada vez mais, utilizando o e-commerce. De acordo com informações divulgadas pela agência de notícias do Grupo Folha (Folhapress), pesquisa entre Mercado Livre e Ibope Conecta aponta crescimento médio de 45% em vendas feitas, em 2015, por Médias, Pequenas e Microempresas (MPMEs) por meio da internet. Segundo o estudo, 81% das MPMEs que atuam no e-commerce apresentaram crescimento. O resultado é superior à expectativa dos lojistas, que contavam com crescimento médio de 25%.


Os entrevistados atribuem o crescimento a fatores internos, como ampliação da oferta de produtos e serviços (78%), frete grátis (34%) e investimento em tecnologia (33%). Entre os fatores externos, 48% acreditam que o aumento da confiança do consumidor em transações on-line colaborou e, para 47%, a expansão do acesso à internet entre a população contribuiu para o aumento.


Essa é a segunda edição da pesquisa realizada pela plataforma em parceria com o instituto. O estudo ouviu 529 vendedores da plataforma entre 28 de janeiro e 12 de fevereiro de 2016. De acordo com o resultado, os pequenos empresários estão otimistas: 84% acreditam que as vendas crescerão em 2016. Outros 64% acreditam que o comércio eletrônico brasileiro crescerá como um todo, contra 20% que não acreditam em crescimento.


Os motivos apontados para o pessimismo são a política econômica do governo e as novas regras do ICMS que, segundo eles, impactam mais custos e aumento da burocracia nas lojas físicas. A Região Sudeste segue como a mais importante em vendas virtuais, com 74% das menções. As Regiões Nordeste e Centro-Oeste têm 9% cada, a Sul tem 7% e, o Norte foi mencionado por 1%.


Enquanto isso, nas indústrias...


Diferentemente do cenário não tão favorável para as papelarias, os fabricantes conseguiram se manter em crescimento durante o período de volta às aulas. O momento é desafiador para a economia brasileira, as dificuldades são inúmeras, mas as estratégias criativas e o empenho das indústrias fizeram com que a principal temporada escolar se convertesse em saldo positivo.


“Contrariando as expectativas do mercado nacional, a Jandaia manteve o crescimento sustentável que vem alcançando nos últimos anos, com crescimento aumento próximo a 15% em comparação ao volta às aulas de 2015”, afirma Thiago Dias, analista de marketing da tradicional caderneira.


A entrada cada vez maior nos varejos de pequeno e médio porte é essencial para que a empresa se mantenha forte no segmento, de acordo com o analista. “Reforçamos a estratégia de nossa equipe de vendas para que possam estar cada vez mais presentes no atendimento a esses clientes”, afirma. “O mais importante é estar próximo do consumidor e entender seus costumes e gostos”, complementa Thiago, que resume o desempenho da Jandaia neste volta às aulas como muito bom.


Pesquisar para conhecer o consumidor, seus desejos e necessidades para atendê-lo sempre da melhor forma também fazem parte da atuação da Faber-Castell. A empresa tem como prioridade o constante investimento em processos tecnológicos, aprimoramento de linhas de produção, qualificação dos recursos humanos e o desenvolvimento de matérias-primas de maior qualidade. “Todos os produtos voltados ao segmento escolar apresentaram bons resultados de venda. Assim como no ano passado, esse volta às aulas foi bastante positivo”, salienta Carlos Benhur, diretor de vendas e trade marketing no Brasil da bicentenária alemã.


Apesar da retração de mercado, Juliana Rett, gerente de marketing da Dello, sinaliza que a empresa apresentou crescimento graças à transparência na política de vendas. “A solidez da empresa forneceu calma e foco suficientes para que os esforços se voltassem para a busca de novos canais de vendas e novas estratégias de negócio”, garante a profissional.


Dello Investiu investiu em automação para que o processo de produção esteja cada vez mais capacitado e para que os produtos cheguem com melhor custo-benefício ao ponto de venda. “Sabemos que essa missão está sendo muito bem cumprida”, afirma Juliana. Em meio ao panorama atual, certo atraso na aquisição de produtos para o período sazonal foi sentido, mas a situação não chegou a gerar prejuízos e, sim, aprendizado. “Apesar do período desafiador, o desempenho foi satisfatório e nos deu muita base e preparo para quando o mercado mostrar o primeiro sinal de reaquecimento”, finaliza.


Fato é que a crise não é mais dúvida. No entanto, o mercado papeleiro, como sempre, atravessa períodos de turbulência, mas se mantém vivo e essencial para a população. É um momento importante compartilhado por todos os brasileiros, e a esperança é a real melhora do país, e as papelarias, definitivamente, sairão ainda mais fortes. Afinal, como afirma Sidney Fusco, o ramo de papelaria é para quem gosta de trabalhar; e para quem trabalha de forma correta e honesta, o destino é apenas um: o progresso.



 

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