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Gestão

4 gerações, 1 incêndio e 138 anos de história

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A Papelaria Mec, de Juiz de Fora, foca no atendimento aos clientes como base da existência centenária

Quem passa pelo centro da cidade de Juiz de Fora, certamente reconhece a Papelaria Mec como um recanto tradicional do comércio da cidade, mas nem todo mundo se dá conta da história centenária da papelaria que já está na quarta geração da família. Fundada em 1882 por Francisco Baptista de Oliveira, com o nome “Casa da Barateza”, ela tinha inicialmente como foco a venda de tecidos finos, rendas, perfumaria, calçados, luvas, chapéus, bengalas, guarda-chuvas, artigos de armarinho e toda sorte de produtos a preços acessíveis. Francisco, um visionário que fundou também a Academia de Comércio – tradicional colégio da cidade – faleceu aos 45 anos de idade e teve como sucessor seu primo, Alfredo Ribeiro de Oliveira, que assumiu a função de principal administrador.

Alfredo se manteve aà frente do negócio por mais de três décadas, tendo depois como sucessor o seu genro, Cleveland Duarte Braga. Já estabelecidos no comércio local, o imóvel em que o estabelecimento funcionava necessitava de modernização, foi então que em março de 1954, faltando pouco para a conclusão das obras, o prédio para o qual haviam se transferido sofreu um incêndio que provocou a destruição da loja e a perda de todas as mercadorias. Mesmo diante da tragédia, a Casa da Barateza foi reinaugurada em junho do mesmo ano, com estoque renovado.

Tinha início uma nova fase em que Cleveland trouxe do Rio Grande do Sul para Juiz de Fora a marca Renner, fabricante de roupas prontas. A loja começa a vender vestuário e itens para cama e mesa. Nesse momento passa a ser chamada “Barateza Confecções”, sendo pioneira de vendas pelo crediário, o que deu maior impulso ao negócio e trouxe facilidade para os clientes.

Mas e a papelaria?

A grande virada do empreendimento acontece nos anos de 1960, quando o Ministério da Educação (MEC) realiza a “Campanha Nacional de Material Escolar”, na qual os materiais escolares eram vendidos a preços mais baixos. O MEC tinha interesse em montar um posto de distribuição em Juiz de Fora e Cleveland se propôs a ser o representante. É nesta época que a Barateza amplia o negócio de roupas e ganha um balcão com itens de materiais escolares como cadernos, lápis, réguas, borrachas, alguns livros e dicionários.

Uma década depois, nos anos 1970, a dinâmica havia se invertido, o vestuário da Barateza foi reduzido e os materiais escolares ganharam maior espaço com novos e variados produtos. A essa altura os clientes já identificavam o setor da loja como “Mec”, e em 1974 a loja é transferida de endereço, desta vez com o nome de Papelaria Mec.

Em 1981, Alfredo Ribeiro Braga, filho de Cleveland Braga, torna-se o proprietário da empresa, já consolidada no ramo de papelaria. Sob nova direção, a firma Ribeiro de Oliveira & Cia inicia uma fase de modernização com o aumento na variedade de produtos sem perder o conceito de bom preço e atendimento que sempre caracterizou o empreendimento.

Crescimento sustentado

Em 1996, a empresa ganha novo ânimo, na ocasião entram para a sociedade os dois filhos de Alfredo Ribeiro Braga: Leandro Ângelo Braga e Daniel Ângelo Braga, que, junto ao pai, deram novo impulso à empresa centenária. Em 2002, em razão dos 120 anos, a direção festeja o acontecimento com a abertura de uma filial, totalizando duas lojas no centro da cidade.

Em um contínuo processo de inovação que já soma 138 anos, a empresa vê no diferencial de atendimento a alavanca para fidelizar clientes seja pela experiência de compra, novos produtos, treinamento de equipe, disposição da loja, seja pelo recorrente abastecimento com novidades. Segundo Daniel Ângelo Braga, focar somente em preço na era das commodities não garante relevância no mercado, uma vez que as grandes empresas ganham em quantidade e a Mec se destaca na qualidade somada à competitividade.

Na virada de 2015 para 2016, a papelaria entra no mercado online primeiramente com o intuito de oferecer conforto e comodidade aos clientes locais, mas logo no início se surpreende pela aceitação do mercado,  pela conquista de uma relevância regional e pelos pedidos que chegam dos quatro cantos do país. Daniel conta que o comércio teve um resfriamento gerado pela crise que vem se intensificando desde 2017, mas acredita que o site de vendas tem muito potencial e segue numa crescente.

Maior desafio

Para o diretor, nestes 138 anos de existência o momento mais desafiador é justamente o atual, com o enfrentamento da pandemia do coronavírus, que impôs incertezas e dificuldades. “Ficamos 120 dias com a loja fechada por conta de decreto municipal e tivemos que fortalecer nossa atuação nas vendas online e reinventar nossos processos internos de compra e financeiro para passar por esse período. Nossa motivação maior foi a de poder levar às pessoas soluções para seu dia a dia de trabalho e escola e saber que somos importantes na vida dos consumidores”, relata Daniel Ângelo.

O reconhecimento chegou através dos pedidos pelas redes sociais, onde as pessoas falavam da importância da disponibilidade da Mec em levar até às casas delas os produtos em um momento em que elas não podiam sair de casa. Para a empresa foi gratificante saber que o seu serviço é essencial para muitos que estão em casa e dependem da entrega para realizar um trabalho ou ter um dia a dia menos estressante e mais produtivo.

 As lojas físicas representam mais de 90% das vendas, segundo Daniel.  “Temos uma clientela cativa que adora frequentar a loja, mas paralelamente a este cenário temos uma visão otimista com a crescente do mercado virtual. Para isso acontecer investimos na contratação de agência de marketing digital e já planejamos o próximo passo, que é o lançamento de um aplicativo, uma tendência de mercado.”

O sucesso está na conexão

Mesmo conectados às inovações, Daniel credita o sucesso à proximidade com o cliente, serviço personalizado na loja, escuta de demandas, conhecimento das necessidades e uma experiência de compra que vai além da aquisição do produto, incluindo consultoria de compra para empresas e escritórios. A Mec ainda hoje possui uma gestão familiar que se divide entre Daniel, o irmão Leandro e o pai Alfredo Ribeiro Braga.

O maior acerto, segundo Daniel, foi ter focado no consumidor final como o mais importante, agregar serviços e produtos diferenciados para que ele perceba o valor da marca. “Saímos da briga por preços que estava canibalizando nosso setor e partimos para uma diferenciação no mercado ao proporcionar experiências no momento da venda, algo que o cliente não encontra na concorrência. Já um erro foi o de olhar para o concorrente e querer copiar processos sem pensar na realidade e foco da nossa loja. Isso nos mostrou que cada loja tem sua unicidade e maneira de interagir com seu público-alvo e que as estratégias têm que ser pensadas de acordo com a mentalidade da loja e suas próprias perspectivas.”

Diante desse momento de pandemia os planos de curto prazo foram alterados, a Mec está focada em manter os empregos dos funcionários e superar esta fase com a marca fortalecida pelo trabalho realizado na quarentena de estar sempre próximo ao público. Em  médio prazo a ambição é de abrir mais filiais, já em  longo prazo é de perpetuar mais uma geração nessa história de empreendedorismo no mercado papeleiro.

Segmento escolar não é tudo

A Mec tem como carro chefe o material escolar, além de forte atuação em suprimentos e equipamentos para escritório, material para desenho e pintura, artesanato e a linha de informática, comunicação e eletrônicos que vem numa crescente como uma tendência bem promissora. A loja possui uma equipe dedicada ao atendimento corporativo, que tem necessidades bem distintas.

Para os empresários que encontram dificuldade em enfrentar a sazonalidade do “volta às aulas”, Daniel alerta que embora esta época mereça maior atenção e investimento, trata-se de apenas dois meses do ano.  “Traçamos estratégias para os outros 10 meses explorando outras épocas e datas comemorativas e focando em nichos que têm uma demanda constante durante todo ano.”

Apaixonado pelo mercado, se tivesse que abrir outro negócio ainda sim optaria pela papelaria, diz Daniel. “Meu ponto de vista soa tendencioso por já estarmos há gerações neste ramo, mas devo dizer que hoje as papelarias abrigam diferentes segmentos como presentes, decoração e brinquedos. É uma área que possibilita ao administrador introduzir novos segmentos e ampliar o escopo de atuação da empresa.”

Para finalizar, Daniel afirma que persistência é fundamental. “Não há resultado imediato, é preciso manter o foco e definir metas. Caminhos que se mostram muito fáceis e rápidos às vezes guardam armadilhas que vão trazer prejuízos. Outro ponto importante é a presença do empreendedor em todas as etapas de trabalho, é esse tipo de atitude que te permite delegar as tarefas a uma equipe de confiança para que possa dar novos passos a outros projetos. Sozinho o empreendedor não conseguirá crescer ou demorará demais para atingir suas metas.”

Para seguir adiante, a Mec busca inspiração em empresas com aceitação e prestígio junto ao consumidor, como Faber-Castell, Tilibra, Pilot, Stabillo, entre outros. Em comum elas buscam proximidade com o consumidor final. “Em matéria de lojas do segmento focamos em empresas nacionalmente conhecidas como Kalunga, Leitura ou redes locais como Caçula, que nos motivam a trilhar o caminho do sucesso.” 

“Nossa motivação maior foi a de poder levar às pessoas soluções para seu dia a dia de trabalho e escola e saber que somos importantes na vida dos consumidores.” – Daniel Ângelo, diretor da Papelaria MEC

“Não há resultado imediato, é preciso manter o foco e definir metas. Caminhos que se mostram muito fáceis e rápidos às vezes guardam armadilhas que vão trazer prejuízos.”- Daniel Ângelo, diretor da Papelaria MEC

“Sozinho o empreendedor não conseguirá crescer ou demorará demais para atingir suas metas”- Daniel Ângelo, diretor da Papelaria MEC

Inspire-se e realize

O diretor Daniel Ângelo revela o que considera o maior acerto e erro à frente da Papelaria Mec.

Maior acerto

Ter focado no consumidor final como o mais importante, agregar serviços e produtos diferenciados para que ele perceba o valor da marca. “Saímos da briga por preços que estavam canibalizando nosso setor e partimos para uma diferenciação no mercado ao proporcionar experiências no momento da venda, algo que o cliente não encontra na concorrência.”

Não valeu a pena Um erro foi o olhar

para o concorrente e querer copiar processos sem pensar na realidade e foco da própria loja. “Isso nos mostrou que cada loja tem sua unicidade e maneira de interagir com seu público-alvo e que as estratégias têm que ser pensadas de acordo com a mentalidade da loja e suas próprias perspectivas.”

Mais de perto da Papelaria MEC!

Cidade: Juiz de Fora – MG

Fundação: 1882

Funcionários: 17 funcionários nas duas lojas no período não sazonal, na volta às aulas o quadro dobra.

Região que abrange: Loja física abrange Juiz de Fora e cidades vizinhas. O e-commerce é direcionado mais para as regiões  Sul e Sudeste (devido aos custos de frete), mas abrange todo território nacional.

Área: 100 m2 aproximadamente cada loja.

Filiais: Duas.

Perfil do cliente: Consumidor final de produtos de papelaria, artesanato, desenho e pintura. Estudantes universitários e mercado corporativo.

Tíquete médio: Varia muito de acordo com a época do ano (volta às aulas cresce consideravelmente) e com o tipo de cliente (cliente final de papelaria ou corporativo – no caso do corporativo é bem maior). Mas como nosso foco maior é o cliente final, de balcão, o tíquete médio gira em torno de R$30,00.

Número médio de itens oferecidos: 4.000.

Área total de venda: 300 m2.

A vitrine precisa ter: Novidades de papelaria como canetas, marcadores, planners. Tudo com muita cor para estimular o cliente a um ambiente que remeta ao desejo de compra.

Produtos mais vendidos: Material de desenho e escrita, suprimentos escolares do dia a dia para ensino infantil e médio e suprimentos para escritório.

Melhores fornecedores: Faber Castell, Tilibra, Compactor, Pilot, Reval, Multilaser, Sertic, Yes, Acrilex.

Produto com o qual gostaria de trabalhar: Ampliar participação em telecomunicações e venda de computadores e periféricos.

O que precisa ser discutido no mercado: Maior união das pequenas papelarias e pequenas redes no intuito de fortalecer o mercado e ver o concorrente como ele realmente é: um concorrente de mercado, mas não um inimigo. A troca de informações entre os participantes do setor  é fundamental para aprimorá-lo.Site: www.mecpapelaria.com.br

Facebook e Instagram: @papelariamecjf