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Quem será o consumidor pós quarentena?

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Instituto e especialistas se debruçam em pesquisas e análises no desafio de identificar as mudanças e preferências do novo consumidor

Como ambicionar um futuro mais po- sitivo num cenário economicamente incerto? E como se preparar para uma nova realidade que se apresenta também nos negócios e nas relações entre consumidores e empresas? Entender as mudanças de para- digma é a melhor forma de se preparar para o crescimento em tempos difíceis. A Kantarrealizou o Barômetro COVID-19, que consiste em uma pesquisa on-line feita em 30 mer- cados, com mais de 25 mil consumidores, a fim de mapear novas expectativas, compor- tamentos e atitudes causadas pelo impacto da pandemia.

A pesquisa da Kantar contou com 500 entrevistados brasileiros no período entre os dias 13 e 16 de março. Os dados revelaram que neste cenário de pandemia, a população brasileira almejava diferentes posicionamentos das marcas. Segundo publicação do site de tendências, os brasileiros esperavam que as marcas: servissem de exemplo e guiassem para a mudança (25%); fossem práticas e realistas e ajudassem consumidores no dia a dia (21%); atacassem a crise e demonstrassem que ela pode ser derrotada (20%); usassem seu conteú- do para explicar e informar (18%); reduzissem a ansiedade e entendessem as necessidades dos consumidores (11%);e por último, que fossem otimistas e pensassem de formas não con- vencionais (3%).

Dados do estudo numa segunda leva da pesquisa, feita no Brasil entre os dias 27 e 31 de março, indicavam que a expectativa de que as marcas ajudassem os consumidores no dia a dia havia saltado de 21% para 28%, e que o desejo para que se tornassem guias para a mudança se manteve em 25%, um indicador de que esse anseio irá perdurar.

Consumo minimalista

A professora e pesquisadora de comporta- mento do consumidor e analista cultural, Elis Vasconcelos, fez algumas previsões baseadas em sua experiência de treze anos, dividida entre consultorias para o mercado e estudos acadêmicos na área. Elis observa dois princi- pais recortes possíveis: um deles é formado por um grupo de pessoas que sempre con- sumiram,acabaram desenvolvendo alguma consciência de consumo e já estão numa etapa da vida na qual entenderam que não é necessário comprar tanto e que existem outras formas de consumo através de experiências que vão além da compra e venda. Esse tipo de pensamento ganhou evidência num momen- to em que muitas pessoas ficaram em casa e se deram conta de que precisam de muito menos para viver do que imaginavam. Nesse sentido,as marcasvão ter que se reinventar para atender uma demanda que é muito me- nos emocional e muito mais inspiracional.

“Muitas vezes, quando se fala em tendência no Brasil, ela é muito focada em classes sociais altas com realidades que se aproximam da Europa ou dos Estados Unidos.” Elis Vasconcelos, professora e pesquisadora de comportamento do consumidor e analista cultural.

A pesquisadora ressalta que a tendência a um consumo minimalista é um reflexo de uma classe social e de um grupo muito específico. Em contraste a essa amostra temos uma outra vertente muito mais ampla que não pode ser esquecida e que ainda tem muitos desejos e demandas por consumo, e chama a atenção para a diversidade do país com uma plurali- dade de classes sociais e realidades distintas. A tendência minimalista existe, mas ela não engloba a realidade de grande parte da popu- lação. Elis ressalta que muitas vezes, quando se fala em tendência no Brasil, ela é muito focada em classes sociais altas, com realidades que se aproximam da Europa ou dos Estados Unidos.

Para Elis, em relação à questão do volu- me de compras tudo tende a se normalizar e existem várias formas de olhar para essa questão. Tivemos no início da pandemia uma corrida para estocar coisas com medo de que faltassem itens nas prateleiras. Esse compor- tamento de escassez não continuou porque as

pessoas entenderam em algum momento que não iria faltar nada e que tudo seguia sendo abastecido. Numa segunda etapa, o consumo ficou voltado para o essencial, com pouquís- simo espaço para supérfluos, mas isso porque as pessoas não estavam saindo de casa e uma fatia considerável da população tinha perdido seus empregos ou eram prestadores de serviço e não estavam conseguindo trabalhar, por essa razão as pessoas passaram a consumir somente o necessário.

E-commerce é irreversível

Outro ponto significativo no comporta- mento de consumo foi uma maior disposição, tanto das empresas como dos consumidores, de se voltar mais para o on-line. No isolamen- to social passamos a comprar artigos básicos através de aplicativos e sites, e o ponto alto disso, segundo Elis, foi que consumidores foram compelidos a ceder à desconfiança que muitos tinham em relação às compras on-line ou à insegurança de ter seus cartões clonados. A inclinação a partir de agora é que as pessoas fiquem mais abertas a este tipo de consumo via internet, incluindo itens triviais.

Como reflexo de toda essa circunstância de crise econômica as pessoas vão ter que repen- sar o que irão consumir e a forma como isso irá se efetivar. Consumirão menos, seja pela questão minimalista ou porque tiveram sua renda reduzida, mas quando isso acontecer, a predisposição maior é que elejam coisas que realmente façam sentido para elas de alguma forma. Em várias áreas do consumo as pessoas vão comprar de acordo com os propósitos nos quais elas acreditam.

Para atender as novas exigências que sur- gem as empresas terão que aprimorar e investir muito mais em comunicação, às vezes mais do que no próprio produto para conseguir manter um vínculo com os seus clientes através de uma relação de afeto. “A inclinação maior dos consumidores será para as empresas que con- sigam impactar seus clientes através de uma comunicação sadia”, defende Elis. De tudo uma coisa é certa, não dá para sair da crise da forma como entramos.

O novo consumo

A pesquisadora Elis Vasconcelos sugere algumas características do consumidor deste novo futuro que se desenha e as- sinala o fato que todas elas, na realidade, estão interligadas:

CONSUMO POLÍTICO

As pessoas se tornarão mais conscientes e ligadas a condutas que elas desejam ver colocadas em prática na sociedade;CONSUMO AFETIVO

As pessoas buscarão produtos e marcas que carregam os valores que nos quais elas acreditam; e
CONSUMO RESPONSÁVEL

As pessoas pensarão mais antes de com- prar, compras de impulso serão mais raras.